Um desejo súbito de rever esse grande filme, batendo um rango, dois sábados atrás, aqui em Goiânia.
A história começa com uma tomada traseira de Nicole Kidman (Alice), despida, um mero corpo nu na normalidade de sua casa. Sim, um
marido está perto dela! A imagem apela a... nada. Não é um apelo, é só uma mulher arrumando-se para um baile. Nessas condições, seu corpo não é suporte para a fantasia do marido. Só torna-se realmente erótico quando, selvagem, veste a fantasia de Alice (notemos o trocadilho com a Alice no País das Maravilhas, embora Alice sonhe e Bill passeie nas entranhas de Wonderland): trocar marido e filha por uma noite com o oficial da marinha que a olhou, vestida e num espaço público.
Respeitabilidade ameaçada. Reputação em perigo. O risco potencial é excitante, mas sem prejuízo do doloroso reconhecimento da dependência mútua do casal, do corriqueiro e do simples que os coloca juntos, mas não aprisiona seus olhos; ah, os olhos, maçã envenenada da fantasia! O êxtase com o oficial compensaria a perda de todo o resto?
Ao saber da fantasia de Alice, Bill fica visivelmente magoado. E depois excitado. Bill é o terceiro excluído que cria a força daquela transa sensacional. No sonho de Alice, no final do filme, ela o trai e ri cruelmente dele. A participação do marido só pode ser, mesmo, a de quem olha. O oficial é a ameaça clara:
você não pode dar tudo o que ela precisa, ela poderia te trocar por mim a qualquer momento, seu amor é insuficiente. Ora, pois: desejo e amor podem ser forças completamente opostas, inconciliáveis.
A potencialidade erótica da fantasia de Alice é imensa, também para Bill, que - o perdedor da cena - não elaborou nenhuma clara fantasia de êxtase com qualquer outra mulher. Seu passeio noturno se dá em ruas escuras, em contextos mal definidos, que não chegam a um clímax. É um passeio na bizarra vida sexual de Nova Iorque: perigosa, vida e morte, na qual ele não chega a se integrar, pois é um bom marido e a prática do sexo com outras mulheres parece proibida para ele.
Mas uma bizarrice que precisa ser conhecida, como a própria Alice, a mulher para quem seus olhos tinham se fechado.
Bill parece-me bastante ingênuo. Saber da fantasia de Alice o empurra para um passeio estarrecido no mundo de sexo interdito que ele parece nunca ter imaginado.
De fato, Alice o trocaria por aquela única noite com o oficial? Não o sabemos, e ele não o sabe, o que é crucial para que saia pela noite, perambulando, em busca de um conhecimento impossível para ele...
se você pode sonhar com outros homens, Alice, também posso sonhar com outras mulheres. Mais, até: também posso olhar para elas, pois há muitas tão belas quanto você. O simples fato de ser minha esposa não é, tal como você disse, um empecilho para o meu desejo.
Alice nua no vaso sanitário não é, pois, erótica. É realmente um animal. Não implica em nenhuma regra, nenhum código moral que tornasse o desejo, um desejo humano. O erotismo do filme é uma forte negação do visível - do visível traseiro de Kidman. Defendamos a supremacia da fantasia sobre a visão: qualquer um vê Kidman nua, mas é de olhos bem fechados para o seu corpo doméstico que o marido imagina-a no sexo louco com o jovem oficial da marinha.
Será que o erotismo que faz sentido num mundo pobre em fantasia, cheio de transparências físicas, é o erotismo das fantasias opacas, proibidas; um mundo em que a excitação sexual passa pelo perigoso e bizarro - ou seja, pela violência?
Bill continua horrorosamente hipnotizado pela fantasia da mulher. O filme, durante o seu passeio noturno, é um sonho, repleto de elementos desconexos, prazeres e horrores, de códigos desconhecidos: da suruba que quase o mata; o código de conduta do cliente da cortesã (como se portar com a prostituta? Como se portar com a garota aliciada pelo pai?). A transgressão sexual é inteiramente nova para ele. Bem como a surpresa, o horror, o fascínio.
Bill rejeita a possível transa com a apaixonada filha de seu falecido paciente, com a prostituta, com a garota aliciada pelo pai, com as mulheres na suruba. O que, diabo, quer aquele homem?
A resposta só pode ser uma, parece-me: Billl quer
olhar. Esse vigor único, desamparado de poder acompanhar os desejos loucos dos outros, não lhe é tirado.
A moral da história, também já antiga, é a de que a relação sexual é mais a confluência de fantasias distintas que a partilha de uma realidade visual única. É que sexo e identidade nunca vão se separar - depois da noite voyeur, ele poderia ser o mesmo homem? Depois de conhecer a fantasia da esposa, poderia tratá-la do mesmo modo? Os pecadilhos de ambos os atiram de volta, um contra o outro, mas repletos da culpa que suas intenções de transgressão acarretaram. Moral cristã à risca: vale a intenção tanto quanto a prática. O corpo morto da modelo, para piorar, está atravessado entre essas intenções. Um código desconhecido - o de Deus, sempre furibundo e imprevísivel - foi violado. Esta moral cristã continua parametrando dois sentimentos maiores: a lascívia e a culpa de um mundo amplamente perverso, que alicia e corrompe em nome do narcisismo irrefreado, deixando aos pobres casais a dura escolha entre a hipocrisia de traições dissimuladas ou a excitação perversa, que, punida e rejeitada, torna-se o derradeiro uivo de um amor embaraçado nas inúmeras teias da enorme aranha chamada New York.