... existe alguém mais doente do que eu?
É claro, existe, e muita gente. E todos eles devem estar se perguntando isso, também.
Associei aqui nos meus neurônios: adoecer dum mal incerto é voltar a ser criança, mas sem o tempo, a ingenuidade ou as alegrias correspondentes. O espelho quebrou, véio, e agora? Esse papo de que todo mundo reexamina sua vida no seu leito de morte ou convalescença faz mesmo sentido. A vida se altera profundamente.
A incerteza dilata-se a um tal ponto que as perguntas não são mais como "serei boa escritora ou não?", "o que quero para minha carreira?" mas sim "como estará minha perna (ou qualquer outra parte adoecida do enfermo imaginário e epistemologicamente neutro) amanhã"? A forte sensação de ter sido desapropriado do próprio corpo... Enfermos de antigamente deviam ser ainda piores, dada a inefetividade dos tratamentos, mas nós, os doentes de modo geral, nos igualamos no nosso desinteresse por questões da humanidade, enquanto qualquer mísero soro, soporífero, dieta ou o diabo atraem integralmente nossa atenção.
O mundo retornou à infância, ficou fútil, dependente dos entes queridos, e relaciona-se à potência pessoal quase tanto quanto uma dança da chuva produz um Oceano Atlântico.
Claro, eu exagero. Certamente, por pior que estejamos, podemos fazer algo para melhorar. Mas é chato ter que sofrer por cada pisada meio torta, cada esticada indevida dessa perna (ou fígado, digamos, do nosso doente hipotético) manhosa, e etc. Acho que agora entendo melhor Kafka, e, no pior momento desta doença, era só ele que eu lia - não por acaso, também ele um enfermo. Eis o segredo daquele homem maravilhoso: adoecer é pagar por uma soma de crimes que nunca cometemos, e que faz cada mísero escorregão durar uma eternidade.
11.12.2009
10.17.2009
Requiem a um ateu
Então, estive estudando sobre envelhecimento e essas coisas. E dias desses, ouvi de uma pessoa querida a seguinte frase: não seria melhor se vc tivesse uma religião? Em momentos difíceis, ela dá esperança.
Mas defendo o ateísmo radical. É absolutamente necessário abraçarmos Espinosa: para a Natureza, é indiferente se um determinado homem existe ou inexiste. Qualquer dos nossos males faz-nos sentir "injustiçados", "violados" por uma força maior. "Why me?". O ateísmo liberta justamente desse senso de injustiça que, desenvolvendo-se ao seu limite, é a fonte da amargura e da Tristeza Maior dos velhos e doentes. Não há razão para que um mal físico qualquer atinja A ou B. Nós somos inocentes. Melhor atribuir nossas mazelas aos hábitos, à genética; até o acaso, que é outro nome para a má sorte. Mas não nos (des)culparmos; isso é irracional, não compreende as leis a que nosso organismo obedece e quer ir além das possibilidades que ele tem; faz pouco dos nossos esforços para sobrevivermos, tanto dos grandes quanto dos miúdos, que existem em nosso dia-a-dia. Não devemos buscar, a partir daquele equivocado sentimento de injustiça, uma reparação divina. A justiça e o mérito são conceitos humanos; a natureza não é justa ou injusta, e essa amoralidade essencial repete-se ao longo dos séculos; deixando-nos, para o dia em que nos extinguirmos, a certeza de que, por piores ou mais tolos que sejam os homens, ela vai seguir seu curso. O Universo é livre, e somos parte de sua liberdade essencial. Nenhuma falsa esperança deve servir para ocultar nossa imensa fragilidade; e nenhum temor excessivo que sobrevalorize a dor ou a solidão decorrentes de nossa velhice ou doença. É isso aí: acatar a indiferença da natureza também é evitar a autocomiseração e viver com o melhor que, ao longo desse trajeto material e vulgar, conseguimos tirar do gênero humano.
Mas abraçando essa indiferença da natureza... não desaparece tudo aquilo que é humano? Não estamos simplesmente sendo equívocos e covardes, negando a responsabilidade que temos para com os outros homens?
Bem, aí a história é outra. Nossa virtude ao adoecer e envelhecer deve, sim, vir da certeza de que fizemos da vida ou da morte uma escolha, de que não atormentamos os outros desnecessariamente, mas suportamos, firmes e de consciência limpa; certos de que não merecemos nem deixamos de merecer o que acontece em nosso corpo, mas sim que agüentamos o nosso mísero (e talvez amargo) quinhão de indiferença da natureza.
Mas defendo o ateísmo radical. É absolutamente necessário abraçarmos Espinosa: para a Natureza, é indiferente se um determinado homem existe ou inexiste. Qualquer dos nossos males faz-nos sentir "injustiçados", "violados" por uma força maior. "Why me?". O ateísmo liberta justamente desse senso de injustiça que, desenvolvendo-se ao seu limite, é a fonte da amargura e da Tristeza Maior dos velhos e doentes. Não há razão para que um mal físico qualquer atinja A ou B. Nós somos inocentes. Melhor atribuir nossas mazelas aos hábitos, à genética; até o acaso, que é outro nome para a má sorte. Mas não nos (des)culparmos; isso é irracional, não compreende as leis a que nosso organismo obedece e quer ir além das possibilidades que ele tem; faz pouco dos nossos esforços para sobrevivermos, tanto dos grandes quanto dos miúdos, que existem em nosso dia-a-dia. Não devemos buscar, a partir daquele equivocado sentimento de injustiça, uma reparação divina. A justiça e o mérito são conceitos humanos; a natureza não é justa ou injusta, e essa amoralidade essencial repete-se ao longo dos séculos; deixando-nos, para o dia em que nos extinguirmos, a certeza de que, por piores ou mais tolos que sejam os homens, ela vai seguir seu curso. O Universo é livre, e somos parte de sua liberdade essencial. Nenhuma falsa esperança deve servir para ocultar nossa imensa fragilidade; e nenhum temor excessivo que sobrevalorize a dor ou a solidão decorrentes de nossa velhice ou doença. É isso aí: acatar a indiferença da natureza também é evitar a autocomiseração e viver com o melhor que, ao longo desse trajeto material e vulgar, conseguimos tirar do gênero humano.
Mas abraçando essa indiferença da natureza... não desaparece tudo aquilo que é humano? Não estamos simplesmente sendo equívocos e covardes, negando a responsabilidade que temos para com os outros homens?
Bem, aí a história é outra. Nossa virtude ao adoecer e envelhecer deve, sim, vir da certeza de que fizemos da vida ou da morte uma escolha, de que não atormentamos os outros desnecessariamente, mas suportamos, firmes e de consciência limpa; certos de que não merecemos nem deixamos de merecer o que acontece em nosso corpo, mas sim que agüentamos o nosso mísero (e talvez amargo) quinhão de indiferença da natureza.
10.06.2009
Plekhanov e uma tartaruga
As idéias de Plekhanov não valem um vintém.
* * *
Se hoje tivesse apostado corrida com uma tartaruga, a coitada teria perdido feio.
* * *
A caixa do supermercado sem as sandálias seria algo que jamais veria, se estivesse andando. Mas eu me sentei.
* * *
Li esse grande livro sobre a velhice, da Ecléa Bosi. Lembre-me de jamais tirar meus pais de sua casa. Bem, acho que isso não precisará acontecer, mesmo, o que é uma promessa meio desonesta de minha parte. Fácil demais de cumprir.
* * *
Um asilo público deve ser como um hotel. Onde não se paga a diária e de onde só se sai para morrer. Acho que o asilo é a vida.
* * *
Acho que o tempo só foi inventado no capitalismo. Para mensurar o quanto vc consegue produzir-e-comprar. O resto, o lixo das horas, serve para orkut ou msn.
* * *
Mas imagine se Plekhanov apostasse corrida com a tartaruga. Ele perderia, pois já morreu. Acho que levo vantagem até sobre ele.
* * *
Se hoje tivesse apostado corrida com uma tartaruga, a coitada teria perdido feio.
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A caixa do supermercado sem as sandálias seria algo que jamais veria, se estivesse andando. Mas eu me sentei.
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Li esse grande livro sobre a velhice, da Ecléa Bosi. Lembre-me de jamais tirar meus pais de sua casa. Bem, acho que isso não precisará acontecer, mesmo, o que é uma promessa meio desonesta de minha parte. Fácil demais de cumprir.
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Um asilo público deve ser como um hotel. Onde não se paga a diária e de onde só se sai para morrer. Acho que o asilo é a vida.
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Acho que o tempo só foi inventado no capitalismo. Para mensurar o quanto vc consegue produzir-e-comprar. O resto, o lixo das horas, serve para orkut ou msn.
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Mas imagine se Plekhanov apostasse corrida com a tartaruga. Ele perderia, pois já morreu. Acho que levo vantagem até sobre ele.
9.20.2009
De olhos bem abertos
Um desejo súbito de rever esse grande filme, batendo um rango, dois sábados atrás, aqui em Goiânia.
A história começa com uma tomada traseira de Nicole Kidman (Alice), despida, um mero corpo nu na normalidade de sua casa. Sim, um marido está perto dela! A imagem apela a... nada. Não é um apelo, é só uma mulher arrumando-se para um baile. Nessas condições, seu corpo não é suporte para a fantasia do marido. Só torna-se realmente erótico quando, selvagem, veste a fantasia de Alice (notemos o trocadilho com a Alice no País das Maravilhas, embora Alice sonhe e Bill passeie nas entranhas de Wonderland): trocar marido e filha por uma noite com o oficial da marinha que a olhou, vestida e num espaço público.
Respeitabilidade ameaçada. Reputação em perigo. O risco potencial é excitante, mas sem prejuízo do doloroso reconhecimento da dependência mútua do casal, do corriqueiro e do simples que os coloca juntos, mas não aprisiona seus olhos; ah, os olhos, maçã envenenada da fantasia! O êxtase com o oficial compensaria a perda de todo o resto?
Ao saber da fantasia de Alice, Bill fica visivelmente magoado. E depois excitado. Bill é o terceiro excluído que cria a força daquela transa sensacional. No sonho de Alice, no final do filme, ela o trai e ri cruelmente dele. A participação do marido só pode ser, mesmo, a de quem olha. O oficial é a ameaça clara: você não pode dar tudo o que ela precisa, ela poderia te trocar por mim a qualquer momento, seu amor é insuficiente. Ora, pois: desejo e amor podem ser forças completamente opostas, inconciliáveis.
A potencialidade erótica da fantasia de Alice é imensa, também para Bill, que - o perdedor da cena - não elaborou nenhuma clara fantasia de êxtase com qualquer outra mulher. Seu passeio noturno se dá em ruas escuras, em contextos mal definidos, que não chegam a um clímax. É um passeio na bizarra vida sexual de Nova Iorque: perigosa, vida e morte, na qual ele não chega a se integrar, pois é um bom marido e a prática do sexo com outras mulheres parece proibida para ele. Mas uma bizarrice que precisa ser conhecida, como a própria Alice, a mulher para quem seus olhos tinham se fechado.
Bill parece-me bastante ingênuo. Saber da fantasia de Alice o empurra para um passeio estarrecido no mundo de sexo interdito que ele parece nunca ter imaginado.
De fato, Alice o trocaria por aquela única noite com o oficial? Não o sabemos, e ele não o sabe, o que é crucial para que saia pela noite, perambulando, em busca de um conhecimento impossível para ele... se você pode sonhar com outros homens, Alice, também posso sonhar com outras mulheres. Mais, até: também posso olhar para elas, pois há muitas tão belas quanto você. O simples fato de ser minha esposa não é, tal como você disse, um empecilho para o meu desejo.
Alice nua no vaso sanitário não é, pois, erótica. É realmente um animal. Não implica em nenhuma regra, nenhum código moral que tornasse o desejo, um desejo humano. O erotismo do filme é uma forte negação do visível - do visível traseiro de Kidman. Defendamos a supremacia da fantasia sobre a visão: qualquer um vê Kidman nua, mas é de olhos bem fechados para o seu corpo doméstico que o marido imagina-a no sexo louco com o jovem oficial da marinha.
Será que o erotismo que faz sentido num mundo pobre em fantasia, cheio de transparências físicas, é o erotismo das fantasias opacas, proibidas; um mundo em que a excitação sexual passa pelo perigoso e bizarro - ou seja, pela violência?
Bill continua horrorosamente hipnotizado pela fantasia da mulher. O filme, durante o seu passeio noturno, é um sonho, repleto de elementos desconexos, prazeres e horrores, de códigos desconhecidos: da suruba que quase o mata; o código de conduta do cliente da cortesã (como se portar com a prostituta? Como se portar com a garota aliciada pelo pai?). A transgressão sexual é inteiramente nova para ele. Bem como a surpresa, o horror, o fascínio.
Bill rejeita a possível transa com a apaixonada filha de seu falecido paciente, com a prostituta, com a garota aliciada pelo pai, com as mulheres na suruba. O que, diabo, quer aquele homem?
A resposta só pode ser uma, parece-me: Billl quer olhar. Esse vigor único, desamparado de poder acompanhar os desejos loucos dos outros, não lhe é tirado.
A moral da história, também já antiga, é a de que a relação sexual é mais a confluência de fantasias distintas que a partilha de uma realidade visual única. É que sexo e identidade nunca vão se separar - depois da noite voyeur, ele poderia ser o mesmo homem? Depois de conhecer a fantasia da esposa, poderia tratá-la do mesmo modo? Os pecadilhos de ambos os atiram de volta, um contra o outro, mas repletos da culpa que suas intenções de transgressão acarretaram. Moral cristã à risca: vale a intenção tanto quanto a prática. O corpo morto da modelo, para piorar, está atravessado entre essas intenções. Um código desconhecido - o de Deus, sempre furibundo e imprevísivel - foi violado. Esta moral cristã continua parametrando dois sentimentos maiores: a lascívia e a culpa de um mundo amplamente perverso, que alicia e corrompe em nome do narcisismo irrefreado, deixando aos pobres casais a dura escolha entre a hipocrisia de traições dissimuladas ou a excitação perversa, que, punida e rejeitada, torna-se o derradeiro uivo de um amor embaraçado nas inúmeras teias da enorme aranha chamada New York.
A história começa com uma tomada traseira de Nicole Kidman (Alice), despida, um mero corpo nu na normalidade de sua casa. Sim, um marido está perto dela! A imagem apela a... nada. Não é um apelo, é só uma mulher arrumando-se para um baile. Nessas condições, seu corpo não é suporte para a fantasia do marido. Só torna-se realmente erótico quando, selvagem, veste a fantasia de Alice (notemos o trocadilho com a Alice no País das Maravilhas, embora Alice sonhe e Bill passeie nas entranhas de Wonderland): trocar marido e filha por uma noite com o oficial da marinha que a olhou, vestida e num espaço público.
Respeitabilidade ameaçada. Reputação em perigo. O risco potencial é excitante, mas sem prejuízo do doloroso reconhecimento da dependência mútua do casal, do corriqueiro e do simples que os coloca juntos, mas não aprisiona seus olhos; ah, os olhos, maçã envenenada da fantasia! O êxtase com o oficial compensaria a perda de todo o resto?
Ao saber da fantasia de Alice, Bill fica visivelmente magoado. E depois excitado. Bill é o terceiro excluído que cria a força daquela transa sensacional. No sonho de Alice, no final do filme, ela o trai e ri cruelmente dele. A participação do marido só pode ser, mesmo, a de quem olha. O oficial é a ameaça clara: você não pode dar tudo o que ela precisa, ela poderia te trocar por mim a qualquer momento, seu amor é insuficiente. Ora, pois: desejo e amor podem ser forças completamente opostas, inconciliáveis.
A potencialidade erótica da fantasia de Alice é imensa, também para Bill, que - o perdedor da cena - não elaborou nenhuma clara fantasia de êxtase com qualquer outra mulher. Seu passeio noturno se dá em ruas escuras, em contextos mal definidos, que não chegam a um clímax. É um passeio na bizarra vida sexual de Nova Iorque: perigosa, vida e morte, na qual ele não chega a se integrar, pois é um bom marido e a prática do sexo com outras mulheres parece proibida para ele. Mas uma bizarrice que precisa ser conhecida, como a própria Alice, a mulher para quem seus olhos tinham se fechado.
Bill parece-me bastante ingênuo. Saber da fantasia de Alice o empurra para um passeio estarrecido no mundo de sexo interdito que ele parece nunca ter imaginado.
De fato, Alice o trocaria por aquela única noite com o oficial? Não o sabemos, e ele não o sabe, o que é crucial para que saia pela noite, perambulando, em busca de um conhecimento impossível para ele... se você pode sonhar com outros homens, Alice, também posso sonhar com outras mulheres. Mais, até: também posso olhar para elas, pois há muitas tão belas quanto você. O simples fato de ser minha esposa não é, tal como você disse, um empecilho para o meu desejo.
Alice nua no vaso sanitário não é, pois, erótica. É realmente um animal. Não implica em nenhuma regra, nenhum código moral que tornasse o desejo, um desejo humano. O erotismo do filme é uma forte negação do visível - do visível traseiro de Kidman. Defendamos a supremacia da fantasia sobre a visão: qualquer um vê Kidman nua, mas é de olhos bem fechados para o seu corpo doméstico que o marido imagina-a no sexo louco com o jovem oficial da marinha.
Será que o erotismo que faz sentido num mundo pobre em fantasia, cheio de transparências físicas, é o erotismo das fantasias opacas, proibidas; um mundo em que a excitação sexual passa pelo perigoso e bizarro - ou seja, pela violência?
Bill continua horrorosamente hipnotizado pela fantasia da mulher. O filme, durante o seu passeio noturno, é um sonho, repleto de elementos desconexos, prazeres e horrores, de códigos desconhecidos: da suruba que quase o mata; o código de conduta do cliente da cortesã (como se portar com a prostituta? Como se portar com a garota aliciada pelo pai?). A transgressão sexual é inteiramente nova para ele. Bem como a surpresa, o horror, o fascínio.
Bill rejeita a possível transa com a apaixonada filha de seu falecido paciente, com a prostituta, com a garota aliciada pelo pai, com as mulheres na suruba. O que, diabo, quer aquele homem?
A resposta só pode ser uma, parece-me: Billl quer olhar. Esse vigor único, desamparado de poder acompanhar os desejos loucos dos outros, não lhe é tirado.
A moral da história, também já antiga, é a de que a relação sexual é mais a confluência de fantasias distintas que a partilha de uma realidade visual única. É que sexo e identidade nunca vão se separar - depois da noite voyeur, ele poderia ser o mesmo homem? Depois de conhecer a fantasia da esposa, poderia tratá-la do mesmo modo? Os pecadilhos de ambos os atiram de volta, um contra o outro, mas repletos da culpa que suas intenções de transgressão acarretaram. Moral cristã à risca: vale a intenção tanto quanto a prática. O corpo morto da modelo, para piorar, está atravessado entre essas intenções. Um código desconhecido - o de Deus, sempre furibundo e imprevísivel - foi violado. Esta moral cristã continua parametrando dois sentimentos maiores: a lascívia e a culpa de um mundo amplamente perverso, que alicia e corrompe em nome do narcisismo irrefreado, deixando aos pobres casais a dura escolha entre a hipocrisia de traições dissimuladas ou a excitação perversa, que, punida e rejeitada, torna-se o derradeiro uivo de um amor embaraçado nas inúmeras teias da enorme aranha chamada New York.
9.03.2009
Nome-do-Pai e Nome-de-Pia
Por que sujeitos poderosos têm nomes como "Carlos Menezes Direito" ou "Hélio Deliberador"?
Prego!
Acho que é o efeito da sugestão. Lacan chamaria isso de constituição da personalidade a partir do "Nome-do-Pai". Em resumo, se fosse Silva, o falecido juiz Menezes Direito talvez estivesse vendendo bicicletas ou roubando-as.
Meu sobrenome não tem nenhum significado. Acho que por isso eu não me encontro nessa vida.
O que dizer de Lula da Silva?
Abstenha-se de pensar a psicologia dos nomes por Lacan. As distorções do mundo empírico vão pegá-lo na próxima esquina. Enquanto isso, posso distrair-me e não ser ninguém...
Será que alguns se apropriam de seu nome - como o Sr. José, de Todos os Nomes - enquanto outros viram propriedade dele?
O caso de Fernando Pessoa daria o que pensar. Por que tantos nomes? Por que Caeiro, Soares, Reis, Campos, Pessoa?
Eram nomes de homens portugueses. Pessoa talvez não fosse mesmo um homem, mas apenas O Português. A cada vez que eu encontrar um estereótipo, o Sr. Manuel da padaria, creio que me lembrarei de Pessoa e sua vontade de ser como o Sr. Manuel, de acenar-lhe, de ser reconhecido pelo dono da Tabacaria de defronte.
De todas as coisas anormais e loucas que vivemos, talvez a maior seja nossa capacidade de nos identificarmos com um coletivo a ponto de respondermos com nosso nome de pia a cada vez que alguém nos pergunta como nos chamamos. Isso sim é escravidão.
Prego!
Acho que é o efeito da sugestão. Lacan chamaria isso de constituição da personalidade a partir do "Nome-do-Pai". Em resumo, se fosse Silva, o falecido juiz Menezes Direito talvez estivesse vendendo bicicletas ou roubando-as.
Meu sobrenome não tem nenhum significado. Acho que por isso eu não me encontro nessa vida.
O que dizer de Lula da Silva?
Abstenha-se de pensar a psicologia dos nomes por Lacan. As distorções do mundo empírico vão pegá-lo na próxima esquina. Enquanto isso, posso distrair-me e não ser ninguém...
Será que alguns se apropriam de seu nome - como o Sr. José, de Todos os Nomes - enquanto outros viram propriedade dele?
O caso de Fernando Pessoa daria o que pensar. Por que tantos nomes? Por que Caeiro, Soares, Reis, Campos, Pessoa?
Eram nomes de homens portugueses. Pessoa talvez não fosse mesmo um homem, mas apenas O Português. A cada vez que eu encontrar um estereótipo, o Sr. Manuel da padaria, creio que me lembrarei de Pessoa e sua vontade de ser como o Sr. Manuel, de acenar-lhe, de ser reconhecido pelo dono da Tabacaria de defronte.
De todas as coisas anormais e loucas que vivemos, talvez a maior seja nossa capacidade de nos identificarmos com um coletivo a ponto de respondermos com nosso nome de pia a cada vez que alguém nos pergunta como nos chamamos. Isso sim é escravidão.
8.18.2009
You Really Got A Hold On Me (um trecho de meu futuro livro)
Capa dos Beatles. Não, eu não sei qual é.Você me laçou, eu não queria, mas você me fez pensar que eu não estou sozinha esperando, como um cão que perdeu o dono. You treat me badly. eu não gosto de você, pobrezinho, aí sentado, soluçando a perda de uma mulher que nunca teve. Mas se fosse diferente, você teria ficado bem aqui? Esse quarto é muito escuro para você aprender a enxergar direito, patrãozinho. Esqueça toda essa história de saber o que eu quero, pois você não sabe. É uma coisa fazente, até quando está parado está dormindo ou chorando, o que eu acho absolutamente boring. Por que você simplesmente não fica aí, não espera comigo? Ah, mas eu não queria esperar consigo! Ou esqueço que ele volta um dia, ou deixo você aí e volto para a rua, para o meu quarto, para qualquer lugar seguro-e-tranqüilo onde sua ação não me perturbe, por que você não é como este chapéu guardado lá no meu quarto? Há quem precise simplesmente racionar copos de plástico para saber-se vivo. Não é? Lembra-se de como ficou apavorado com os copos de plástico na época da gripe suína? Grande poder, esse! Sem mim você não é nada. Eu não. Não vou jamais me rebaixar a isso. Não vou ficar aqui chorando enquanto essa mulherzinha de merda, essa professorinha baratesca, ri da minha cara, quero dizer, ela poderia estar rindo da minha cara, mas ana é muito deprimentemente compassiva para parar de afagar minha cabeça enquanto eu a seguro pelos cabelos (os meus), para não quebrar o nariz caindo de desespero neste chão. Eu simplesmente não compreendo como ela consegue viver assim, Jesus, me salve, se é que a minha mãe não vem mesmo. Se eu parar, morro. You really got a hold on me; hold me please - ah, eu sou uma criancinha, eu sou um homem adulto? - o amor é assim, se a ternura não resolve, a proximidade pode ser garantia de sobrevivência, ou de morte, porque talvez eu pense em te matar, Ana. Ouviu isso? Talvez eu esteja pensando em te matar. Ainda bem que ninguém ouve pensamentos, eu sou livre, enquanto eu puder pensar em te esfaquear devagarzinho, saberei que você não é páreo para mim, ou só contrato alguém, mas o que estou dizendo? eu te amo. Fica comigo e esquece aquele cara. You really got a hold on me, por favor, deixe eu beijar um pouquinho esse pescoço, eu nunca mais vou te bater. Eu juro.
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